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Um poder invisível da fé
Um poder invisível da fé
02/04/2013

O psiquiatra americano afirma que as pesquisas são claras ao relacionar as diversas formas de religiosidade com a prevenção de doenças cardiovasculares e da hipertensão

O psiquiatra Harod Koenig, professor da da Universidade de Duke, na Carolina do Norte , há 28 anos se dedica a estudos que relacionam religião com saúde .Tem quarenta livros publicados e mais de 300 artigos sobre o tema.Sua tese é que a fé religiosa ajuda as pessoas em diversos aspectos da vida cotidiana, reduzindo o stress, fazendo-as adquirir hábitos saudáveis e dando-lhes conforto nos momentos difíceis, entre outros benefícios .Koenig, de 60 anos, nasceu em uma família católica, mas hoje, por influencia da mulher, freqüenta a igreja protestante.Ele esteve recentemente no Brasil para dar uma palestra em Porto Alegre e lançar a edição brasileira do seu livro Medicina, Religião e Saúde - O Encontro da Ciência e da Espiritualidade.

Como o senhor chegou à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29% ?  

Há uma relação significativa entre freqüência da prática religiosa e longevidade.Acredito que o impacto na sobrevinda seja até maior , algo em torno de 35%. Três fatores influenciam a saúde de quem pratica a religião.O primeiro são as crenças e o significado que essas crenças atribuem à vida.Elas orientam as decisões diárias e até as facilitam, o que contribui para reduzir o stress. O segundo fator esta relacionado ao apoio social.As pessoas devotas convivem em comunidades com indivíduos que acreditam nas mesmas coisas e oferecem suporte emocional e, às vezes, até      financeiro.O terceiro fator é o impacto que a religião tem na adoção de hábitos saudáveis .Tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a a boa saúde.Os religiosos tendem a ingerir menos álcool , porque circulam em um meio onde ele é mais escasso e com pessoas que bebem  menos.Eles também tem inclinação a não fumar.

É menos provável que adotem um comportamento sexual de risco, tendo múltiplos parceiros ou  parceiros fora do casamento.Tudo isso influencia a saúde e faz com que vivam mais e sejam mais saudáveis.

Também se beneficiam da fé os adeptos de religiões que proíbem cuidados médicos, como é o caso dos testemunhos de Jeová com a transfusão de sangue?

A maioria dos estudos comprova que os benefícios de ser adepto de uma religião são maiores que os malefícios .No caso das testemunhas de Jeová, há pesquisas que mostram que a longevidade deles não é diferente da dos católicos ou dos protestantes.                                                  

Quem se torna religioso tardiamente, também se beneficia?

Sim, especialmente dos aspectos psicológicos e sociais.A vida passa a ter  mais sentido, a pessoa  ganha apoio da comunidade, esperança, interlocutores afinados com o seu jeito de ver o mundo. A        consequência é a melhora na qualidade de vida.A saúde física, no entanto, nao será tão influenciada    porque nao dá para apagar os anos de maus hábitos anteriores.

Ter fé não é o mesmo que seguir uma religião.Do ponto de vista dos benefícios,  isso também faz diferença?

Não adianta só dizer que é espiritualizado e nao fazer nada.É preciso ser comprometido com religião para gozar dos seus benefícios .É preciso acordar cedo para ir aos cultos, fazer parte de uma comunidade, expressar sua fé em casa, por meio de orações ou do estudo das escrituras.As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde .

Como as diferentes religiões se comparam nesse efeito positivo sobre a saude e a longevidade que  o senhor detectou?

Não há estudos confiáveis comparando as religiões.Até porque as mesmas religiões se desenvolvem em ambientes completamente diferentes e sao influenciadas por esses ambientes.Um credo cujos benefícios sao óbvios no Brasil pode nao ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Algumas enfermidades respondem melhor à pratica religiosa do que outras?

As doenças relacionadas ao stress, como disfunções cardiovasculares parecem ser mais reativas a uma disposição mental de cunho religioso.

O stress influencia as funções fisiológicas de maneira já muito conhecida e tem impacto em 3 sistemas ligados à defesa do organismo: o imunológico, o endrócrino e o cardiovascular.Se estes sistemas não funcionam bem, ficamos doentes.a religiosidade põe o paciente em outro patamar de tratamento.

O senhor diz quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa por ela nao conseguir cumprir com o que a doutrina considera que sao suas obrigações religiosas.

Não existem pesquisas que contatem isso, mas certamente um Deus punitivo, que vigia e condena seus erros, vai elevar esse stress.Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Existem estudos que ligam a religiosidade profunda à ausência da depressão. O senhor também registrou esse efeito?

Os pacientes que lidam melhor com suas doenças, perdas e incapacidades ficam menos depressivos.Os religiosos suportam melhor suas limitações porque a religião dá significado a essas circunstâncias difíceis.O sofrimento adquire um propósito.O indivíduo não sofre sem razão nem sente sozinho.As religiões tem inúmeros exemplos de sofrimento: Jesus torturado e crucificado; Jô perdeu bens, família, saúde; Maomé, que passou por momentos difíceis na infância.Todos sofreram e a fé os fizeram seguir adiante.Um estudo recente da Universidade Colúmbia demonstrou que, quando são religiosos, filhos de pai e mãe depressivos têm menor risco de desenvolver depressão. Provar que pessoas com fatores genéticos de risco podem ser protegidos pela religião é sensacional.

Parte da entrevista do Psiquiatra Harold Koenig dada a Revista Veja em 10 de outubro de 2012